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A mostrar mensagens de março, 2005

Fragmento 27 – Recorda-me

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Guarda-me, junto a ti, dentro do teu peito. Guarda-me, como eu te guardo a ti, junto a ti em pensamento, te recordo, recorda-me também, recorda todos os momentos, todas as mágoas e alegrias, recordo eu, todos os dias, todas as vezes que me senti perdido, todos os sonhos em que me encontrei. Recorda-me, como eu me recordo, feliz, triste, tentando falar comigo mesmo, dizendo-me coisas que não entendo, ouvindo vozes de mim, que me falam em línguas que não conheço, que me tentam mostrar-me quem sou, quando ás vezes nem sei se existo. Nem eu, nem tu, ninguém sabe quem é. Quem é que me diz? Sou quem e em que mundo? Sou eu, mas de onde vim, onde estou, porque me sinto tão perdido em mim, porque só me encontro em sonhos? Talvez nem eu próprio seja real, se é que o real existe e não somos todos uma fantasia, produto da imaginação fértil de alguém. Mas penso, e depois, o “penso logo existo”, é facilmente contestado na minha mente, talvez uma mente estúpida que não tem mais no que pensar, que nã...

Fragmento 26 – Viagem

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Dias, correm, mais lentos que normalmente, mais frios, sem sabor, sem amor, levando-me para o inevitável, a derradeira viagem. Mas quando? Nunca sei, nunca chega, ou então não se revela, nunca se mostra. Como tudo o que é incerto, a incerteza instala-se dentro de mim, a nostalgia, o querer sentir e o sentir falta de algo, o porquê. Quando tudo parece dar certo, correr bem, desmorona-se como um castelo de cartas, que alguem empurra, como uma pedra de dominó. Caíu, sucumbiu e levou-me com ele, como uma onda que nos arrasta, para um túmulo de água, sem hipoteses de fugir, uma luta impossível de vencer, remando contra a maré. E depois o silêncio instala-se, sempre, mexendo, misturando as minhas ideias, os meus sentidos, o meu sentir. Como correu. Mal, porquê? Não o sei, ou prefiro enganar-me e culpar alguém, como se isso fosse resolver tudo, acendo outro cigarro, tiro uma golfada de fumo, que deixo encher-me os pulmões, procurando a calma. Mas qual calma? Procurando fugir à dor, a este se...

Fragmento 25 - Só sinto

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Não dá para mudar o não quer mudar, não há maneira de contornar a questão, simplesmente, não há vontade nem querer, enfim, só, tento perceber, tento não sentir, coisa que não é de todo possível, só me estou a tentar enganar, talvez diminuir um pouco a dor, a perda. A minha perda, só minha, como me lembro, como tento esquecer e sinto que não consigo, mas continuo a tentar, escrevendo frases sem sentido, ou com muito pouco, procurando uma saída, uma porta que me leve para outra dimensão, outro mundo, onde não seja preciso sentir, nem perder, um mundo que não existe e que seria vazio, com demasiadas certezas e riscos calculados, insipido, sem gosto. Mas que me saberia tão bem agora, que espécie de fuga, que caminho infernal, sem retorno, sem alegria, mas tambem sem dor, sem vida e sem amor, sem nada, nada que me pudesse magoar. Mas para quê? O que que iria eu querer de um mundo desses? Os medos existem para ser enfrentados, vividos, até saboreados, por alguns, que não fogem e não se esco...

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